Parasitismo saudosista

Senti sua falta

E de mais ninguém

Senti como quem sente

O fogo que queima a epiderme

Em entranhas contorce-se o verme

Da saudade

C o r r o e n d o

Cada migalha de nova alegria

Avocando cada pedaço de falsa nostalgia

Parasitismo saudosista

Suga sangue, nutrientes e vida

Fazendo passado presente

Nessa pálida agonia de viver em ti

Nessa pálida agonia de sentir.

 

 

 

 

Inconformidade

Ainda que eu tenha que silenciar

E engolir o choro

Ainda que eu tenha que sofrer

Mas não pode calar o coro

 

Ainda que eu tenha que ter

Braços e pernas arrancados

E meu peito, estripado

Não se aquieta tantos subestimados

 

Não é sobre ver graça na guerra

Muito menos no desespero

É sobre duvidar do preceito

É sobre não calar o peito

 

É sobre querer revolucionar

E mostrar que é antiquado

Reprimir toda uma nova geração

Uma nação de inconformados.

 

 

 

 

 

Mal do século

Na época do romantismo brasileiro

Grande parte da urbe tinha tuberculose

Não se esperava que chegasse inteiro

Aos vinte anos, quem dirá a “idade da esclerose”

 

Rostos pálidos apareciam na multidão

Com ar de morte

Ser correspondido pelo amor

Era idealização, era sinal de sorte

 

Mas o hoje também tem hematoma

Solidão virou nova mazela

Arrogância virou sintoma

Carência insaciável virou remela

 

Essa úlcera contaminou a população

Tornou corriqueiro o amar

Mas contra ela existe fármaco

A questão é:

Quando você vai começar a se remediar?

Nossos próprios umbigos

Angustiante viver

Num mundo de fachadas

Onde a beleza tem privilégio

Onde o egoísmo faz morada

Angustiante perceber

Que o ser não tem vez

E que as aparências valem mais

Que qualquer essência

Angustiante doutrinar nossas crianças

Com uma visão distorcida do que é

“Se amar”

Angustiante olhar

Para os nossos próprios e imundos umbigos

E tropeçar em alguém também distraído

Angustiante saber que

Nós somos uma geração de Narcisos.

Cabra macho

Nasci no dia 24 de março

Mas quando meu pai foi me registrar no cartório,

Colocou dia 25,

Porque 24 é número de viado

Durante toda minha infância, eu só ganhava carrinhos e bolas

E ai de mim se eu fosse pego brincando com minha prima

Pois cabra macho não brinca de casinha ou de boneca,

Cabra macho não rima

E nada de dormir na casa de Augusto,

Muito menos na de João,

E se algum deles é gay?

Quero meu filho com essas companhias, não

Homem de verdade tem que ir pra farra,

Sair todo fim de semana,

Beber, chegar em casa de madrugada,

E nunca recusar uma transa

Mas o destino sabe o que faz

Mesmo sob o teto e a ditadura dos meus pais,

Hoje em dia

Eu só gosto de rapaz.

Vaidade

Já houve um tempo no qual ser corpulento era sinal de boa alimentação, de saúde e de fertilidade, porém com a crescente alienação pelos meios de comunicação e os novos padrões impostos, as pessoas passaram a deixar de lado esse excesso de tecido adiposo e começaram a procurar por corpos mais esguios e “bonitos”.

Cirurgias, anabolizantes, dietas radicais, cirurgias e exercícios físicos sem acompanhamento profissional se tornam cada vez mais comuns para quem busca o “corpo perfeito”, sendo uma injúria contra a saúde. Pessoas que ficam alienadas ao tentarem se encaixar em moldes (que quase sempre são inalcançáveis), abrem mão da saúde pela beleza, podendo desenvolver transtornos alimentares e psicológicos como bulimia, anorexia, ansiedade e depressão, podendo desencadear até em morte.

Não tem problema em querer cuidar do corpo, contanto que não tenha efeitos maléficos na saúde, logo, aprenda a amar a si mesmo e à suas imperfeições, afinal, ninguém é perfeito. Não se deixe ser levado pela ditadura da TV e nem pela vaidade, acredite, não vale a pena, o preço a pagar é alto.

 

Sobre a tristeza

 Do mesmo modo que a alegria é importante, a tristeza também é. É através dela que aprendemos o valor dos pequenos e fugazes momentos de felicidade e descobrimos a nós mesmos. A tristeza é um sentimento de descoberta, permita-se senti-la, mas tenha cuidado para não se afogar nas mágoas.

 É através deste sentimento melancólico que nós refletimos sobre nossa importância e a de nossas ações, é assim que podemos nos conhecer e nos reinventar cada vez que nosso atual-eu não nos satisfizer. Mas a tristeza não é moça que anda sozinha, ela sempre é acompanhada  pela angústia e pelo arrependimento, trazendo de volta lembranças que um dia enterramos vergonhosamente no passado. Lembranças essas que achamos que nunca iriam vir à tona algum dia.

 Por isso que a tristeza amedronta, nem todo mundo quer relembrar, muito menos recriar-se, e acabamos assim nos contentando com aquele vazio de uma felicidade fraca e fugaz de que nada adianta. Não se contente com um sentimento que não é seu, busque e sinta-o.

Relacionamentos fatigantes

 Antes você muito me queria pois não me tinha, porque a partir do momento que suas mãos pousaram sobre mim, não tive tanto valor como antes.

 Antes tinha todo aquele contexto da conquista e da impressão, agora não, agora não tem mais o que conquistar. Aquelas palavras que antes eram surpresa, agora se tornaram todas gastas e todo aquele clima de mistério já passou. Acabou. Evaporou. É como se o amor nem existisse mais.

 Aos poucos, o relacionamento começa a deixar aquele ranço e aquela cor monótona, impossibilitando a prolongação de laços que se tornaram tão fracos, roídos pela maldade do tempo e do descaso. O relacionamento se torna fatigante, exaustivo, incapaz de continuar.

 Se continuássemos a conquistar nosso par a cada dia, de um jeito totalmente diferente e novo, os nosso relacionamentos não se tornariam tão custosos, seriam uma aventura. Mas entendo o motivo de ninguém fazer isso. Afinal, qual seria a graça de lutar pelo que já se tem?